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Notícias de Teresópolis

Publicada em 08/01/2018

Feira orgânica de Teresópolis reúne do pequeno agricultor ao neorrural

O senegalês Aly Ndiaye mostra em seu sítio na região serrana como uma tecnologia social facilita a transição da produção convencional para a orgânica


O senegalês Aly Ndiaye colhe cenouras ao lado de seu galinheiro integrado à horta. Sua metodologia chamada Pais facilita as tarefas do agricultor (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)

Simpática e acolhedora, a Feira Agroecológica de Teresópolis, que já existe há dez anos e hoje acontece ao lado da estação rodoviária, é um local a ser visitado.

Diferente das feiras orgânicas das grandes cidades, como no Rio de Janeiro, onde os agricultores trazem seus produtos para serem vendidos à população, a feira de Teresópolis é o local onde os agricultores, além de comercializar, fazem também suas compras e aproveitam seus momentos de lazer para colocar a conversa em dia.

Sabe aquela sanfona guardada no fundo do armário? Na feira de sábado, o músico amador tem a oportunidade de trazer o instrumento e tocar para seus colegas. O clima é descontraído e de festa. Em épocas de confraternização o dia termina com o “Chega-Prato”, expressão criada pelos produtores para se referir ao almoço coletivo que cada um colabora com o que sobrou em sua barraca.


Neuza Benevides Marcelino, agricultora de Guapimirim, Rio de Janeiro, aos pés da Serra dos Órgãos, vende produtos de seu sítio Uga-uga (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)

A região serrana é responsável por cerca de 70% do abastecimento de alimentos para o estado do Rio de Janeiro. Chuvas fortes ou períodos de seca impactam diretamente a distribuição aos centros urbanos. As enxurradas de Teresópolis em 2011 destruíram dezenas de propriedades e os preços das verduras e dos legumes dobraram ou triplicaram.

Em 1990, a região começava seu movimento pela agricultura orgânica, ainda que sem certificação. Hoje, a feira conta com cerca de 70 agricultores representando 25 unidades de produção diferentes. No nosso país, campeão de uso de agrotóxico, o colorido das barracas com cereais, hortaliças e verduras fresquinhas e sem veneno é uma excelente opção para a saúde e o meio ambiente. Morangos na cestinha, suco de jabuticaba, bolos integrais e tapioca com diversos recheios são algumas das guloseimas para aqueles que chegam sem café da manhã, como é o nosso caso.

Adubos e inseticidas naturais feitos de cal e enxofre mostram que o conhecimento tradicional estão a favor da natureza. João Gallo, que vende mudas de hortaliças, mostra sua calda bordalesa e seu kefir como acelerador de compostagem. Em cada barraca que paramos escutamos histórias sobre a vida no campo, alimentos saudáveis e proteção da natureza. É uma aula ao ar livre.


O agricultor João Gallo apresenta seu biofertilizante foliar empregado nas mudas de hortaliças que ele vende na feira (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)

Ainda que os alimentos sejam o principal motivo de ir à feira, outro atrativo são os personagens que fazem o encontro acontecer: uma mistura de agricultores familiares, gringos que se instalaram na região, produtores convencionais que se tornaram orgânicos e os neorrurais, como são chamadas as pessoas do universo urbano que compraram um pedaço de terra e passaram a se dedicar ao cultivo de orgânicos.

Até um tempo atrás, a palavra neorrural era usada de forma pejorativa para se referir à pessoa que vinha da cidade, comprava um carro 4x4 bacana e cultivava alimentos sem nenhuma ligação com a realidade local. Hoje, o neorrural já está bem mais integrado com as comunidades de agricultores.

“Aqui vivemos a diversidade. Agroecologia precisa de riqueza na lavoura e nas relações”, diz Hugo de Souza Cerqueira, coordenador do grupo de trabalho da área de cultura da Feira Agroecológica de Teresópolis. “Em um sistema agroecológico, possuir uma boa organização é a chave para produzir com qualidade”, afirma.


Hugo de Souza Cerqueira coordena a área de cultura da Feira Agroecológica de Teresópolis (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)

O segredo da harmonia da feira está no relacionamento entre os agricultores. A associação funciona de forma democrática, sem uma cabeça ou presidente. Os participantes organizam-se em seis grupos de trabalho divididos em produção, comercialização, administração, cultura, Comunicação e organização da feira. A associação tem representantes nos principais conselhos da cidade, como no do meio ambiente e saúde. A feira de sábado cria um ambiente de união e se torna o ponto de encontro entre eles.

O Certificado de Conformidade Orgânica é emitido pelo Sistema Participativo de Garantia (SPG) da Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro. O SPG segue a filosofia de que a certificação deve ser feita por meio do controle social e pela participação e responsabilidade de todos os membros da associação. O sistema garante que os agricultores visitem e sejam visitados anualmente por outros membros do grupo. Durante essas visitas, avaliam-se a qualidade do solo, da água, o tempo de conversão para produzir alimentos orgânicos e até as propriedades do entorno. Além desse tipo de certificação ser mais econômico, o sistema possibilita a troca de informações e de experiências entre agricultores que enfrentam desafios semelhantes.


Rafael Pacheco Guimarães produz e vende flores comestíveis na Feira de Teresópolis (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)

Exemplo interessante da complexidade das famílias rurais é a história do suíço Jurg Studer, antigo empresário de hotelaria e morador em Teresópolis há 20 anos. Em 1990, Jurg resolveu mudar de vida, deixou o trabalho na Suíça e decidiu viajar pelo mundo. Andou por países da Ásia, passou pela Austrália e visitou toda a América do Sul. Foram sete anos na estrada, trabalhando como agricultor sempre que precisava. Quando chegou a hora de parar, decidiu morar no Brasil e se dedicar à agricultura orgânica.

Na feira, Jurg ou Jorge é famoso por seu mel de capixingui, árvore cujas flores dão um néctar de cor clara, cristalização rápida e de excelente qualidade. No entanto, mudanças climáticas e alteração no regime de chuvas atrasaram a produção do mel neste fim de ano. Mas Jorge garante que “aqui em Teresópolis não falta abelha; a produção vai chegar um pouco mais tarde neste ano simplesmente porque a chuva atrasou”. Enquanto isso, vende deliciosas bananas.


Jurg Studer, suíço que trocou a carreira na hotelaria por fazenda orgânica no Brasil, é conhecido por produzir excelente mel de capixingui (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)

Uma grande preocupação dos agricultores é com as nascentes de água que estão secando. A urbanização rápida e desordenada da cidade poderá trazer uma grande crise hídrica nos próximos anos à região. A opinião é de Roberto Selig, fundador da Feira Agroecológica e morador de Teresópolis desde 1982. “A urbanização drena os cursos de água e causa um grande desperdício”, diz ele. “Na minha propriedade e de outros colegas, vejo cursos de rio que estão desaparecendo.” Segundo Selig, o problema aumentou depois das enxurradas de 2011.

Mais de duas horas se passaram e nem sequer conseguimos ver a feira inteira quando um sotaque diferente, uma energia divertida e cores africanas nos pegam de surpresa. É a barraca do senegalês Mame Birame, também agricultor da feira. O encontro inusitado rende mais conversas. Mame é meio-irmão de Aly Ndiaye, conhecido no mundo da agroecologia por ter desenvolvido uma metodologia popular de produção de alimentos de base agroecológica que ajuda o agricultor convencional em sua transição para o orgânico.


Mame Birame vende na feira os produtos do sítio de seu meio-irmão Aly Ndiaye (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)

Partimos da feira com destino certo: o sítio de Aly, na estrada entre Teresópolis e Friburgo. O senegalês de 51 anos e risada solta nos recebe com uma mesa repleta de delícias colocada em seu agradável jardim sombreado. Sua propriedade abriga um sistema integrado que conjuga plantação de frutas (como caqui, acerola, limão-siciliano e banana) com produtos como amendoim, inhame e feijão, entre outros. “O inhame demora seis meses para crescer. Enquanto isso, colhemos o feijão e, assim, temos alimento da roça o ano todo”, explica.

Uma das grandes sacadas de Aly foi criar uma tecnologia social simples que pudesse facilitar a vida do agricultor. Conhecida como Pais, sigla para Produção Agroecológica Integrada Sustentável, a ferramenta propõe o uso do conhecimento tradicional e elementos de baixo custo para que qualquer agricultor possa fazer a transição para a agricultura orgânica.

O galinheiro colocado no meio da horta de Aly exemplifica a lógica desse pensamento simples. Aly colhe, para a salada do almoço, meia dúzia de cenouras diretamente da terra, arranca as folhas e as joga dentro do galinheiro. As galinhas ficam alvoroçadas e imediatamente comem as sobras. A localização central do galinheiro facilita também o processo oposto de distribuir o esterco das galinhas na horta.

“Somos preguiçosos”, afirma Aly, dando uma risada. “Não podemos contar que o agricultor pegue o carrinho e transporte a sobra do material orgânico para o outro lado da propriedade para alimentar as galinhas. Tem de ser tudo bem pertinho.”

“O galinheiro deve ser feito com material que exista no sítio. Pode ser folha de zinco, tela ou o que estiver por perto. Mas tem de ser simples”, diz ele. Com esse pensamento, o Pais, idealizado por ele no ano 2000, atinge hoje mais de 10 mil agricultores. “É preciso parar de pensar quadrado e pensar redondo, conectar as coisas e criar condições para que as ideias sejam replicadas.”

Entre conversas sobre sua trajetória de vida e agricultura, os filhos aparecem aos poucos. Pai de quatro, número alto para um brasileiro, mas pequeno para um senegalês, Aly sempre enfatiza o papel da família. “Meu pai teve 17 filhos. Família na África é muito importante”, conta. “Ele não nos deixou dinheiro, mas nos deu uma excelente educação.”


Aly e sua filha Fatou Cissé Ndiaye, de 14 anos, preparam a mesa do almoço no jardim (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)

A história de Aly com o Brasil começa com uma história quase mágica. Ainda estudante do curso de economia no Senegal, o jovem caminhava para a sala de aula quando o vento trouxe uma folha de jornal em sua direção. A página anunciava que aquele era o último dia de inscrição para um intercâmbio entre universidades brasileiras e do Senegal. A palavra Rural fez com que ele se identificasse com a instituição carioca, a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Poucos meses depois, ele desembarcava no Brasil, com US$ 300 no bolso, mas muito confiante, querendo saber, com seu sotaque francês carregado, como deveria fazer para chegar à “Se-rro-pe-di-cá”.


Na Rural, teve aula com a nata da agroecologia brasileira e nunca deixou de aplicar seus conhecimentos na prática. O senegalês, que inicialmente focou seus estudos na viabilidade econômica de hortaliças orgânicas, trouxe a teoria da universidade para o campo. Trabalhou com os agricultores dos Albertos, região pioneira da agricultora orgânica no estado do Rio, e em outras fazendas orgânicas, até comprar seu próprio pedaço de terra na serra teresopolitana. Voltou mais tarde à Seropédica para um mestrado em agricultura orgânica. Sua preocupação hoje é entender melhor a cadeia de valor dos produtos orgânicos, um dos grandes gargalos do setor. Mas essa será uma outra história!


Para comprovar a qualidade de seu alimento, Aly Ndiaye não hesita em comer uma folha de couve na horta (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)

Fonte: Época / GISELLE PAULINO (TEXTO) E HAROLDO CASTRO (FOTOS)
 

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